Herança e segundo passaporte: o que resolver com antecedência
Um segundo passaporte quase nunca resolve sozinho a questão do imposto sobre herança: quem resolve são a residência, o domicílio e o lugar onde os bens estão. Veja onde os herdeiros pagam 40-60%, onde a alíquota é zero e o que ajustar enquanto ainda dá.
O passaporte não desliga o imposto sobre herança
O equívoco mais comum parece razoável: “tenho passaporte de um país sem imposto sobre herança, então os meus herdeiros não pagam nada”. Raramente funciona assim. Em quase toda jurisdição desenvolvida, o direito de tributar uma herança não vem da cidadania, mas de três outros fatos: onde o falecido era residente fiscal ou domiciliado, onde o bem está e, às vezes, onde mora o herdeiro.
A cidadania define diretamente o imposto sobre herança praticamente num só lugar: os Estados Unidos, onde a rede fiscal acompanha o cidadão pelo mundo. Em todos os outros, o passaporte é uma alavanca, e não uma resposta: ele permite mudar de residência, escolher no testamento a lei sucessória da sua nacionalidade e passar o status aos filhos. Mas, enquanto você de fato mora em Londres ou em Berlim, um segundo passaporte não muda nada no cálculo do imposto sobre a herança.
Três formas de um país reivindicar a sua parte
- Residência ou domicílio do falecido. O princípio dominante na Europa. Se você contava como residente ou domiciliado, o país reivindica todo o seu patrimônio no mundo.
- Localização do bem. Imóveis, contas e participações em empresas locais são tributados onde estão, seja onde for que você morava ou qualquer que fosse o seu passaporte.
- Residência do herdeiro. Alemanha, Espanha, Japão e outros também tributam do lado de quem recebe. As famílias tropeçam nisso com frequência: os pais saíram, mas um filho adulto ficou na União Europeia para estudar e trabalhar.
A conclusão prática é que se planeja uma configuração, e não um passaporte: residência, estrutura de propriedade e localização dos bens, tudo junto. A nossa seção de impostos por país é um bom ponto de partida para as diferenças de fundo.
Os números em 2026
Os números abaixo são indicativos para 2026. Limites e benefícios são revistos, e as regras regionais, sobretudo na Espanha e na Argentina, variam muito de uma província para outra, então confirme as condições atuais antes de agir.
| Jurisdição | Alíquota | Limite de isenção | O porém |
|---|---|---|---|
| Estados Unidos | até 40% | US$ 15 milhões por pessoa (cidadãos e residentes domiciliados) | Não residentes têm só US$ 60.000 contra bens localizados nos EUA |
| Reino Unido | 40% | £ 325.000 (mais até £ 175.000 pela moradia), congelado até 2030 | Desde abril de 2025 o critério são os anos de residência, e não o domicílio |
| Alemanha | 7-50% | € 400.000 por filho, € 500.000 para o cônjuge | O imposto pode surgir só pela residência do herdeiro |
| França | até 45% para herdeiros diretos, até 60% para os demais | € 100.000 por filho | Cônjuge sobrevivente isento; legítima rígida para os filhos |
| Espanha | progressiva, conforme a região | benefícios regionais, quase isenção em algumas áreas | A diferença entre as comunidades autônomas é enorme |
| Turquia | baixa, de um dígito | faixas de isenção para parentes próximos | Entre as alíquotas mais suaves de qualquer grande economia |
| Paraguai | não há | - | Sem imposto próprio sobre herança ou doação |
| Caribe (São Cristóvão, Granada, Antígua, Dominica, Santa Lúcia) | não há | - | Sem imposto sobre herança, mas imóveis locais passam pelo inventário local |
| Emirados | não há | - | Sem testamento registrado, podem valer as regras sucessórias da lei islâmica |
Armadilha um: bens americanos em mãos não americanas
É a exposição mais subestimada nas carteiras internacionais. Se você não é cidadão nem domiciliado nos EUA, a sua isenção contra bens localizados nos EUA não é de US$ 15 milhões, mas de US$ 60.000. Tudo acima disso é tributável com alíquotas de até 40%. A rede pega ações listadas nos EUA mantidas numa corretora (mesmo suíça), imóveis americanos e participações em empresas americanas. Uma posição de US$ 1 milhão em ações de grandes empresas americanas de alguém com passaporte paraguaio ou caribenho é uma possível conta de seis dígitos para os herdeiros.
Tratados sobre herança podem suavizar isso, mas os EUA têm menos de duas dúzias deles, e a maior parte da América Latina, do Caribe e do espaço pós-soviético simplesmente não está coberta. O outro caminho é a estruturação: empresas holding fora dos EUA, seguros, fundos fiduciários. O alerta aqui é real: uma estrutura mal montada cria mais problemas do que resolve, por isso esse tema é para os especialistas da Murblz, e não para o gerente da sua corretora.
Armadilha dois: o domicílio e o rastro depois da saída
Domicílio não é residência. É um conceito de vínculo de longo prazo com um país, e historicamente era muito difícil de se livrar dele. A partir de 6 de abril de 2025, o Reino Unido o substituiu por algo mais claro: o imposto sobre herança mundial agora alcança os “residentes de longo prazo”, quem foi residente em 10 dos 20 anos fiscais anteriores. A saída não encerra isso de imediato. Vale um rastro: três anos para quem foi residente de 10 a 13 anos, subindo com residências mais longas até um máximo de dez.
A lição é que sair da órbita fiscal de um país é um processo de vários anos, e não um carimbo no passaporte. Por isso escolher uma nova residência é melhor feito cedo, e não quando a questão fica urgente. O Paraguai é prático nesse eixo: sem imposto sobre herança, com sistema territorial e exigências de presença leves; os detalhes estão no nosso guia sobre a cidadania paraguaia.
Dupla tributação da herança, e por que os tratados comuns não ajudam
Existem centenas de tratados sobre imposto de renda no mundo. Tratados sobre herança e doação somam no máximo algumas dezenas. O nó clássico: o falecido era residente na Alemanha, o imóvel estava na França, o herdeiro mora na Espanha. Três reivindicações, e a compensação entre elas é parcial ou inexistente.
Dentro da União Europeia, o Regulamento 650/2012 ajuda, mas é importante ser claro sobre o que ele faz. Ele decide qual lei sucessória se aplica, e não quem cobra o imposto. A tributação continua totalmente nacional. O que o regulamento dá é o direito de escolher, no testamento, a lei da sua nacionalidade. É o primeiro ponto em que um segundo passaporte mostra o seu valor na prática: ele pode, por exemplo, tirar uma herança da legítima francesa e deixar você dispor dos bens livremente.
Você precisa de um testamento em cada país onde tem bens
Um único “testamento global” funciona mal no mundo real. Um banco em Singapura, um registro de imóveis na Espanha e um tribunal em São Cristóvão aplicam cada um as suas regras de forma, testemunhas, reconhecimento, tradução e apostila. Enquanto o reconhecimento se arrasta, os bens ficam congelados e a família fica sem dinheiro.
- Um testamento separado, na forma local, em cada jurisdição onde há bens, cada um dizendo expressamente que não revoga os outros.
- Uma escolha expressa da lei aplicável onde for permitido (a União Europeia; os Emirados, por testamentos no Centro Financeiro de Dubai ou no Mercado Global de Abu Dhabi).
- Um registro dos bens, com países, bancos, números de conta, acessos e contatos de quem cuida dos seus assuntos, escrito de um jeito que os herdeiros consigam usar.
- Uma revisão da forma de propriedade: contas conjuntas, seguros e beneficiários de previdência muitas vezes passam por fora do testamento.
Se os bens estão em empresas, lembre que a empresa em si é um bem herdável, com a sua própria localização. Vale conferir com as regras da jurisdição onde você abre a empresa.
A segunda cidadania passa para os filhos?
Em geral sim, e esse é um dos argumentos de longo prazo mais fortes para obtê-la. Mas as condições variam:
- Filhos nascidos depois da naturalização dos pais adquirem a cidadania por descendência automaticamente ou por um simples registro na maioria dos países. Isso inclui os programas do Caribe: Granada e São Cristóvão e Névis permitem que o status passe pela linha familiar.
- Filhos nascidos antes da naturalização em geral não a adquirem automaticamente; precisam entrar no pedido como dependentes ou pedir à parte.
- Limites por geração existem em vários países: a descendência só transmite à primeira geração nascida no exterior, e depois disso é preciso registro ou residência. Isso é mais comum nos passaportes europeus que nos caribenhos.
- Argentina e Brasil dão a cidadania pelo nascimento no território, o que faz da via argentina uma estratégia familiar por si só.
Um ponto próprio dos programas de investimento: a cidadania é herdada como qualquer outra, mas o investimento que a garantiu não. O imóvel comprado para o programa em geral tem um prazo obrigatório de manutenção, e uma venda pelos herdeiros antes desse prazo pode criar complicações, inclusive perguntas sobre o status. As regras mudam de programa para programa, então confira os prazos de manutenção antes da compra, e não depois; as condições estão comparadas no nosso catálogo de programas de cidadania.
O que fazer agora
O mínimo prático tira a maior parte do risco: mapeie os seus bens por país, avalie o seu domicílio e a sua residência com honestidade, e não com otimismo, confira a exposição americana da sua carteira, faça testamentos locais e resolva a liquidez, para que os herdeiros possam pagar o imposto sem vender às pressas a empresa ou a casa da família. Tudo isso é mais barato e simples em vida do que depois. Os especialistas da Murblz montam esse plano com você.
Perguntas frequentes
Um segundo passaporte isenta os meus herdeiros do imposto sobre herança?
É verdade que não residentes nos EUA pagam imposto sobre ações americanas acima de só US$ 60.000?
Um testamento basta para todos os países?
A cidadania obtida por investimento passa para os filhos?
O que acontece com o investimento do programa quando o investidor morre?
Como evitar a dupla tributação de uma herança?
Não quer resolver isso sozinho?
Cuidamos de todo o processo, do início ao fim: conferimos seus documentos, escolhemos o programa certo para a sua situação e damos prazos e custos realistas. Faça sua pergunta no chat: a consultoria gratuita começa aqui mesmo. A representação jurídica perante órgãos públicos e tribunais fica com os especialistas da Murblz, junto com parceiros com licença local.
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